outra carta ao camarada que abandonou a luta socialista

camarada,
é com a garganta seca e os olhos molhados que te escrevo esta carta. minha língua já não consegue projetar palavras tão ásperas como "despedida", "desistência" ou "adeus"; está cansada de falar de "derrota". minha mãe, deus a tenha, dizia que quando pensamos em desistir de algo na verdade já desistimos; nos rendemos. a mente, audaciosa, somente precisa de tempo para indicar-nos "como" e "porquê". é por esse motivo que não te peço que reflita. você já desistiu. mas não se preocupe, não te culpo. teu espírito e tua fé sempre estarão comigo.
em cada reunião.
todo domingo.
tenho muito a te agradecer pois, ultimamente, vinha pensando muito a respeito de tudo; do porquê desta luta. é por medo da morte? por medo de me tornar adubo como meus pais? graças a você pude descobrir que não era a morte a que eu temia. a morte é definitiva. então por quê?
ainda lembro de tua carta, e da força com que a tinta de tuas palavras penetrava no papel. você queria uma vida discreta; praticamente invisível. se casar com andreievna, ter filhos. você não se importa em ser explorado 8, 12, 14 ou 23 horas diárias se pelo menos puder estar 1 ao lado de teus filhos e tua esposa. você não se importa em vender teu corpo, teu suor em troca de um mísero copec pois, ao final das contas, andreievna e teus filhos serão proprietários de teu coração. você já não tem interesse em lutar pelo presente. mas, e pelo futuro? pensarão da mesma forma teus filhos quando forem forçados a trabalhar 18 horas por um pedaço de pão?
como disse, já não luto por mim ou por nossos outros camaradas; eles são fortes. luto pelos filhos de outros, pelos teus filhos, pelos teus netos, pelo futuro...
quanto você acha que darão na casa de penhores aos teus filhos pelo teu coração?
e pelo coração deles?

att,
sachenko